Bom Dia!

– ‘Dia!

– ‘Dia! – Eu respondo mecanicamente sem mesmo levantar a cabeça ou olhar para a porta. Não é porque eu não seja educado ou não goste de pessoas; simplesmente, todas pessoas passam tão rapidamente pelo corredor que, pelo tempo necessário para me virar e olhar naquela direção, já não consigo mais ver quem passou.

Aliás, justiça seja feita, a grande maioria dos escritórios neste edifício são minúsculos, com uma porta que mal deixa passar uma pessoa, dando para um longo corredor mal iluminado. A impressão que tenho é a de que todos que por aqui passam, o estão fazendo por obrigação e querem sair o mais rapidamente daí. Não os culpo e eles têm a liberdade de ir e vir. Já eu, infelizmente, trabalho aqui, sozinho, com vários armários de aço ocupando o já pequeno espaço, uma mesa, uma cadeira e o computador que já viu tempos melhores.

Meu trabalho é receber algum documento, pesquisar demoradamente nos armários, carimbar e devolver para o dia seguinte. Burocracia pura e maçante o dia inteiro! Não se enganem se posso conversar com muitas pessoas; como disse, estou no meio de uma quase multidão, algumas entram rapidamente aqui e querem sair tão rapidamente quanto entraram. Não há tempo para conversas. Na visão destas pessoas, sou um mal necessário e, quanto menos aturarem minha presença, melhor.

Por isto mesmo, a porta tem que ficar aberta o dia inteiro, salvo quando tenho que ir ao banheiro que fica no fundo do corredor e usado por outra centena de pessoas que igualmente trabalham no edifício. Vocês irão achar ridículo o que vou dizer mas gasto entre 7 a 15 minutos para “fazer” o que preciso fazer lá e, quando volto, já tem alguém esperando por mim na porta. Certa feita, comi algo errado e precisava sair correndo ao banheiro várias vezes ao dia… Levei a maior chamada do meu chefe porque alguém reclamou das minhas ausências. Acho que consigui explicar o problema a ele, contanto que isto não acontecesse novamente. Como assim, “não acontecer novamente”? Como farei para controlar isto? Bem, eu prometi que não. Sabe Deus como farei para contornar o problema na próxima vez!…

Este é o meu chefe. Conheço-o apenas pelo nome em alguns documentos e pelas broncas que ele me dá por telefone. Quando me liga! Sei que trabalha num outro edifício, bem mais confortável e cercado de gente bonita e prestativa. Na verdade, não sei se é isto mesmo ou se é apenas um sonho meu de sair desta toca de ratos.

Faço questão de sair pontualmente ao final do meu expediente, até porque ninguém mais circula por aqui. Se preciso de médico, preciso dar um jeito de arrumar um horário ao meio-dia ou após o expediente. Férias? Aproveito poucos dias em épocas de pouco movimento e o resto está se acumulando. Não sei quando poderei usá-las.

Este é o meu trabalho, maçante e repetitivo, a não ser por esta pessoa que me dá um “‘Dia!” de vez em quando, com uma entonação alegre, jovial e feminina. Será alguma admiradora sem coragem de se declarar? Nunca consegui vê-la, apenas sua voz se perdendo rapidamente pelo corredor. Até tentei levantar correndo e ir atrás dela, mas é inútil porque ela já se perdeu no meio de outras pessoas entrando e saindo do edifício. Pego-me pensando numa maneira de flagrar aquela mulher cumprimentando-me, mas ela nunca aparece com regularidade; pode ser hoje, pode ser amanhã, como também pode ser na semana que vem. E nada a ver com horários de início e fim de expedientes.

Na verdade, preciso dizer que tenho também outra mulher em minha vida. Não, não é o que vocês estão pensando; é minha mãe que, esporadicamente, me liga, digo um “Tudo bem!” e desligo imediatamente sem dar maiores papos. Não depois do que ela fez com meu pai e que culminou com a morte dele. Não quero nem me lembrar dos detalhes desta história porque me entristecem demais e sempre deixo escorrer uma lágrima furtiva. No início, ela era até insistente para falar comigo; agora, já entendeu que suas tentativas não são benvindas. Ela já tentou mil vezes me explicar o que aconteceu, mas nunca aceitei e jamais aceitarei suas desculpas.

É uma pena porque, no fundo, acabo sendo um solitário e sei que ela também é solitária. Poderíamos reatar nosso carinho de filho para mãe e de mãe para filho, enquanto os meus dias se passam vazios processando papéis numa atividade monótona; minha mãe insistindo para falar comigo; e eu tentando descobrir quem é a mulher do “Bom Dia!”. Não exatamente o que se poderia chamar de vida excitante!…


Numa manhã chuvosa, uma mulher telefonou-me dizendo-se assistente social e informou-me que minha mãe havia morrido e, claro, ela gostaria de contar com minha assistência para dar as providências necessárias.

Nem me lembro exatamente no que pensei, mas acho que foi um misto de tristeza, desdém e – tenho que ser honesto – um ar de inconveniência por ter que pedir licença ao meu chefe, providenciar o enterro, etc. Em suma, uma mudança inesperada no meu ritmo de vida que eu não esperava, tanto quanto ninguém espera acontecer mas todos sabem que este tipo de coisa acontece. A parte burocrática foi fácil de resolver porque estou acostumado a lidar com papéis de todos tipos; o problema foi que, apesar de tudo, ela era minha mãe e até senti uma ponta de remorso por ignorá-la. Agora, não haveria mais chance de reconciliação, estando eu certo ou não nos meus pontos de vista.

O fato é que estou de volta à minha rotina, processando a papelada que vem e que vai, aos poucos deixando a lembrança da minha mãe para trás como se tudo tivesse sido uma grande história escrita num livro que se fechou para sempre. Poderei lembrar de algumas passagens aqui e ali, mas não poderei lê-lo novamente. Felizmente, estou sendo hábil o suficiente para guardá-lo na prateleira dos já lidos e voltar meus olhos para novas histórias, tais como a de engendrar um plano para ver a mulher do “Bom Dia!” quando ela passasse pela minha porta. Quem sabe, falar com ela, marcar um encontro…

Tentei belas flores num vaso para atiçar sua curiosidade a ponto dela perder alguns minutos comigo. Tentei chocolates junto de mim, mas tudo o que consegui foram gulosos entrando e os roubando. Um dia, dois, uma semana, um mês… E ela não me deu mais o “‘Dia!”. Quem sabe ela sabia muito sobre mim, descobriu a rejeição por minha mãe e me rejeitou também? Não me lembro de nenhuma mulher em particular no funeral, até porque poucas pessoas foram lá, fácil de explicar já que minha mãe não era de muitos amigos e nem tínhamos muitos parentes.

Agora, chove lá fora e me lembrei que também chovia no dia do funeral. Engraçado: minha mãe não gostava de chuva e não saia de casa quando chovia, nem mesmo quando apenas ameaçasse chover. Mesmo assim, acabou saindo com chuva quando saiu pela última vez de casa!

Não pude conter uma risada pela ironia da situação; aos poucos, porém, foi se tornando num choro incontrolável ao me dar conta, em choque, que a mulher que me dava o Bom Dia também nunca aparecia em dias de chuva…

– Mamãe!…



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